terça-feira, 28 de julho de 2009

Sobre motivação: o pulo do gato! [parte III]

Cansado de gente cansada da igreja!

Durante minha caminhada cristã, desde 1993 para ser mais específico, encontrei com todo tipo de crente. Gente que ama e gente que odeia a igreja. Gente que se alegra pelo crescimento dela e gente que se desespera com isso. Gente que acredita na instituição e gente que não acredita. Eu mesmo já tive altos e baixos na fé, já troquei de igreja, de denominação e de “ministério” amais de uma vez. Os motivos foram vários, desde uma questão de geografia até a mais pura e simples incompatibilidade teológica com o(s) pastor(es). Também já tive um tempo (curto) fora da igreja. Sei como se sentem os que saem da igreja.

O que me faz repensar muitas vezes até que ponto essa aparente crise de confiança na instituição que parece ter se popularizado nesta era da internet. Tenho visto nas redes sociais e nos blogs que se multiplicam diariamente muita gente só reclamar da igreja. Alguns apenas repetem o mantra “Jesus não fundou uma igreja”, outros foram profundamente ofendidos/feridos por algo ou alguém dentro de uma igreja e reagiram. De um tempo pra cá surgiram vários livros sobre o assunto, tanto nacionais quanto traduzidos. Lembro dealguns: Igreja? To fora (Ricardo Agreste), Igreja: por que me importar? (Philip Yancey), Igreja? e eu com isso (Ariovaldo Ramos) e mais recente o candidato a best seller “Por que você não quer mais ir à igreja” de Wayne Jacobsen e Dave Coleman.

Sejam os livros, sejam o blogs, todos tem seus argumentos (pró e contra) e certamente bons motivos para estimular seus leitores a irem (ou não) à igreja. Até ai eu entendo e posso concordar. O que eu não entendo é porque vemos tanta gente agir da mesma maneira que os que ele condena agem. Eu explico. Leio textos de pessoas que atacam a instituição igreja com tanta convicção e paixão que acabam mostrando o mesmo tipo de intolerância com quem pensa diferente quanto tem/teriam os membros das igrejas que eles participaram. É uma verdadeira enxurrada de material ridicularizando este ou aquele pregador, esta ou aquela igreja, este ou aquele ministério. Isso me cansa. Esse enfado proclamado aos quatro ventos enfada também! Não quero dizer que não existam pastores maus, ou igrejas que manipulam ou exploram as pessoas. Mas a premissa de fazer disso uma regra é cansativa demais. Parece que ninguém mais presta!

Realmente não vejo sentido em ficar tanto tempo argumento contra algo, se a melhor opção seria sair de trás do computador , da sua zona de conforto e fazer algo de construtivo. Essa era a motivação de Jesus, afinal não vemos no NT ele reclamando o tempo todo do sistema judaico. O Senhor que muitos desses cristãos cansados de igreja dizem seguir mostrou sua insatisfação sim, mas agiu também. Jesus não ficou apenas fazendo piadas dos sacerdotes, nem escreveu textos ridicularizando os rituais e sacrifícios judaicos, tampouco incentivou os judeus sérios a simplesmente pararem de ir ao Templo. Da mesma maneira, os reformadores foram o que o nome indica, pessoas que buscaram reformar o que estava errado. Protestante no sentido de protestar contra o que estava ruim, errado, distorcido. Quando não conseguiram o que queriam, fundaram sua própria igreja. Sim, isso causou alguns problemas (e às vezes causa até hoje). Mas ao menos foi uma atitude coerente com o que pensavam.

Hoje em dia parece que é muito mais fácil ficar em casa apontando o dedo pros erros alheios. É fácil criticar todos os pastores e todas as igrejas como se fossem tudo a mesma coisa. Não sou cego aos problemas da igreja evangélica brasileira, nem penso que o cristão sincero não pode pensar. O que me cansa nisso tudo é ver que existem tantos ministérios sérios por aí, tantos missionários que dão sua vida pelo evangelho, tanta gente que só quer anunciar a salvação e viver pra Deus. Esse em geral eu não vejo eles escreverem nada, estão ocupados demais trabalhando em prol do Reino.

A maioria do pessoal que se diz cansado (ou livre) de igreja no fundo se acha melhor que nós, “os pobres coitados” que ainda acreditam que a Bíblia ensina que existe um corpo de Cristo e que esse corpo deve se reunir, algo instituído por Deus para que o evangelho seja anunciado. Gostaria realmente de saber até aonde vai o compromisso desse pessoal que se vangloria de estar cansado e de ter se libertado da instituição. Quantas pessoas eles levaram a Jesus no último ano? Quanto investiram do seu bolso na propagação do evangelho? Quanto tempo passaram orando por mudanças na sua própria vida? Orando pelos líderes que eles gostam de atacar? Uma resposta honesta seria bem-vinda. Acho que surpreenderia a muitos.

Poderia citar aqui muitos versículos para defender a igreja, mas não preciso fazer isso. Qualquer um que leia com honestidade o NT sabe como a igreja é retratada em suas páginas. Mas realmente estou cansado desse pessoal tentar fazer com que outros abandonem os bancos das igrejas. Já estive em igrejas em quatro continentes. Ela segue existindo, quer eles queriam quer não queiram. Por mais que se acuse e se ataque, tem dois mil anos que ela anda por ai e pelo que sei só terminará com a volta de Cristo.

Termino com um pedido e um lembrete. Pedido: Sua igreja está ruim? Faça sua parte para melhorá-la. Não deu, não quer? Abra sua própria igreja (não conheço outro termo bíblico para reunião de cristãos, sorry)! Aproveite essa disposição e inteligência que Deus te deu para ajudar outros a conhecer o caminho para Deus. E o lembrete? Meus caros irmãos cansados da igreja, Lucas 6:42 também vale para você “Como poderás dizer a teu irmão: Deixa, irmão, que eu tire o argueiro do teu olho, não vendo tu mesmo a trave que está no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão.”

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Guidom - Crombie

Eu sigo certo na contra-mão
Do meu desejo equivocado
Passei no meio da confusão
Andando sempre orientado
Eu não pedalo sozinho, não
Quem foi que disse que eu controlo meu guidom?
Quem me guia é quem me fez
E eu vivo um dia de cada vez
Que é pra eu não me perder
Nem me equivocar no meu querer
Quem me guia é quem me fez
E eu vivo um dia de cada vez
Deixo pra trás
A vontade de desistir
Trago comigo
A esperança no porvir
E a força pra prosseguir

Composição: Paulo Nazareth

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Contingência e o vôo 447



O mundo está em choque. De novo a contingência mostra sua cara na tragédia do vôo da Air France. Vale lembrar: contingência significa que os acontecimentos não são sempre necessários. Quando ocorre alguma coisa sem uma razão que a explique ou justifique. Contingência gera imprevisto; fatos que escapam à engrenagem da causa e do efeito. Um avião cai porque o mundo é contingente, não porque tenha sido vítima do destino ou de um plano de Deus.

Diz-se no senso comum que as pessoas só morrem quando chega a hora. Caso isso fosse verdadeiro, o destino reuniu em uma aeronave as pessoas que deveriam morrer naquele dia. Isso daria à fatalidade um poder apavorante. Impossível pensar que gente de mais de trinta países entrou no vôo 447 sem saber que obedecia a uma força cega, que determinava aquele como o último dia de suas vidas.

Igualmente, acreditar que Deus permite a queda do avião porque tem algum propósito, soa esquisito. Cada pessoa, com histórias, projetos, sonhos, foi arrancada da existência para que se cumprisse qual objetivo? Um objetivo macro? Isto é, para que a humanidade aprendesse ou se arrependesse? Isso faria com que as biografias fossem descartáveis, desprezíveis. O Divino Oleiro, sem precisar se explicar, afogaria tanta gente para conduzir a macro história para o fim glorioso? Sim? Mesmo que exista esse deus, eu não o quero.

Também, algumas pessoas aceitam que Deus tem um plano para cada morte individual. Verdade, ele é Deus, tem todo o poder e é capaz de reunir, em um só lugar, quem deveria morrer. Mas também é bom. Então todos os passageiros foram eleitos para cumprir qual bem? Satisfaz pensar que o bem de ceifar tantas vidas, mesmo sem nenhum sentido do lado de cá, está garantido na eternidade? (Deus sabe o que faz?!?!) Como explicar tal conceito para pais, filhos e parentes desolados? Todos acorrentados à trágica realidade que lhes roubou de seus queridos.

A idéia de que Deus tem um plano para cada morte se esvazia diante dos números. Um avião caiu, mas o que dizer dos incontáveis acidentes de todos os dias? O que dizer das balas perdidas que aleijam transeuntes? E dos erros médicos ou dos acidentes de trânsito? Recentemente uma senhora de nossa comunidade caiu da laje da casa em construção. Ela fotografava a obra para que a filha ajudasse com as despesas do acabamento. Quebrou a coluna e ficou paraplégica. A última explicação que se poderia dar é que Deus tinha um plano em deixá-la paralítica.

Jesus nunca cogitou o mundo sem contingência. Pelo contrário, não atrelou a queda de uma torre aos desígnios divinos; não disse que a cegueira do homem era consequência causal das ações interiores, dele ou de seus pais; advertiu que os seus discípulos enfrentariam tempestade, aflição e morte.

Contingência é o espaço da liberdade, portanto, da condição humana. Sem contingência nos desumanizaríamos. A consciência do risco de adoecer e da imprevisibilidade da morte súbita é o preço que pagamos por nossa humanidade.

O desastre do avião mostra a inutilidade de pensar que o exercício correto da religião e a capacidade tecnológica mais excelente sejam suficientes para anular a contingência. Nossa vida é imprecisa e efêmera. Portanto, vivamos intensamente. Cada instante pode ser o último – Carpe Diem!

Soli Deo Gloria

sábado, 23 de maio de 2009

Tá na palma da mão!

Sabe aquelas lembranças super agradáveis que te dão vontade de voltar no tempo? A primeira pedalada de bicicleta que te fazia pensar em viajar por todo o mundo. O abraço apertado de quem já não está com você. As brincadeiras de criança que você levava super a sério. Seu primeiro vídeo game, naquela “versão Atari” (lembro da quase supermariolatria do Nintendo 64!). Sua formatura do jardim de infância que te fazia sentir um formando de medicina, diante de tantos flashes. Pois bem... Inúmeras são as boas lembranças, não é verdade?

Hoje, a lembrança que mais bateu à porta de minha memória foi a dedicação de mamãe em se mostrar presente sempre (até mesmo quando ela não estava fisicamente próxima de mim). Sei que muitos dirão isso, mas a minha mãe é a melhor mãe do mundo! Engraçada, charmosa, expert em bolo de chocolate, pequenina, sábia, conselheira... Qualidades de montão! Sim, papai também é gente boa. Um dia, dedico um post ao meu velho...

De todas as lembranças que tenho da minha mãe, a que mais me encanta se refere a sua sensibilidade. Quando, por algum motivo, ela não conseguia me acordar com seu sorriso e saudação de bom dia, deixava a marca de seu beijo na minha mão. Ah! Você sabe, né? Nos anos 80/início dos 90, o batom era um bom carimbo... Ou você não assistia ao Xou da Xuxa? Carinhosa e sabiamente, minha mãe soube usar deste carimbo muito bem pra me dizer: “Estive aqui e te beijei. Não se preocupe. Mamãe já volta.” Assim, te pergunto: tem algo mais pessoal e próximo da vista que as mãos? Não é à toa que muita gente, na falta de um bloco de notas, agenda ou simples folha de papel, escreve na(s) mão(s).

Curiosamente, relacionei os cravos que feriram as mãos de Cristo na cruz do madeiro como marcas/carimbos de seu amor por mim. Quando abri meu coração a Cristo, confessando a Ele o meu pecado, me tornei Seu filho. E sabe o que Ele fez? Gravou o meu nome em Suas mãos. Tem como Ele me esquecer? De forma alguma! Tá na palma da mão! Aleluia! Graças a Deus!

Haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Embora ela possa esquecê-lo, eu não me esquecerei de você! Veja, eu gravei você nas palmas das minhas mãos; seus muros estão sempre diante de mim.” (Isaías 49:15-16)

sábado, 16 de maio de 2009

Cruz Credo! [parte II]


Não acredito em treinamentos evangelísticos pra impactar gente, se não há comprometimento em conhecer essa gente. Creio que preciso cair na graça do povo.

Não acredito em congressos de avivamento espiritual, se não há mudança de mente e coração. Creio na metanoia.

Não acredito que vamos alcançar o mundo pra Cristo com nossas marchas, panfletagens, gritarias que incomodam a vizinhança próxima da igreja... Creio que é o Espírito quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo.

Não acredito em liderança relacionada à idéia de “último topo da montanha”: quantidade de membros/seguidores, participação de “palestras sobre liderança”, títulos... Creio que liderar é servir: mordomia.

Não acredito no cristianismo das irmãs de oração que passam mais tempo na igreja do que batendo um papo com seus filhos (alguns, afastados do evangelho). Creio que o ativismo religioso é uma fuga [1].

Não acredito em crentes que projetam templos faraônicos, ao mesmo tempo em que há gente passando fome nos arredores. Creio numa igreja relevante às necessidades sociais de sua “Jerusalém”: solidariedade.

Não acredito que títulos qualifiquem alguém como espiritual. Assumir vários cargos pode ser uma desculpa para não estar em família, por exemplo. Creio que o ativismo religioso é uma fuga [2].

Não acredito que profissão seja o inverso de missão. Creio na missão integral.

Não acredito no “mais novo método de evangelização”. Creio que minha vida é o melhor método para levar alguém a Cristo: discipulado.

Não acredito que tenho a obrigação de pagar cachê pra ministro bacana. Creio na oferta voluntária.

Não acredito na teologia da prosperidade. Creio que a Graça de Deus é o suficiente.

Não acredito nos livros/blogs de auto-ajuda, com todas as suas boas intenções. Creio na comunhão entre os crentes: mutualidade.

Não acredito na oração como varinha de condão ou lâmpada mágica do Aladim. Creio na soberania de Deus.

Não acredito em pessoas perfeitas. Creio que exista gente (inclusive a minha pessoa) sendo aperfeiçoada: santificação.

Não acredito na religião: faça isso, não faça aquilo... Creio que cristianismo é estilo de vida.

Não acredito em Papai Noel. Creio em Papai do Céu.

Agora, como diz o meu avô paterno:
- Quer me enganar? Então, me dá uma bala Juquinha...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Integral ou desnatado? [parte II]


Um dos grandes desafios da igreja cristã (pós) moderna é compreender sua vocação missionária. Lembro de meus tempos de garoto, na “escolinha dominical”. Desde pequeno, ouço falar de meu compromisso de compartilhar Jesus. Hoje, aos 22 anos de idade, me lembrei de um corinho infantil da época em que não existia a “dança do pingüim”: Eu vou crescer, eu vou crescer.../Crescer, crescer, crescer... /Crescer para Jesus./E quando eu estiver desse tamanho assim (hora de dar um pulo daqueles!),/eu quero trabalhar pra meu Jesus, sem fim! (“Tra-la-la...”)

Saudosismos à parte, estive pensando na possibilidade "desnatada" de se interpretar os versos finais dessa inocente canção: “E quando eu estiver desse tamanho assim,/eu quero trabalhar pra meu Jesus, sem fim!”. Sem nos darmos conta, corremos o risco de passarmos uma idéia errada do cristianismo as nossas crianças – como se não bastasse a compreensão distorcida da missão cristã por parte de alguns adultos... O que é “trabalhar pra meu Jesus, sem fim!”? O cristianismo do tipo desbravador, cruzadista, no estilo Indiana Jones? Aquele que o “vocacionado” enxerga Deus um “estraga prazer”? Creio que essa canção deve ser bem compreendida, pra que entendamos – finalmente – o que se tem nomeado de missão integral.

Antes mesmo de Ariovaldo Ramos, Francisco de Assis foi uma das pessoas que explicou o que é missão integral: “Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras.” Percebemos, através dessa máxima franciscana, que pregar o evangelho não exige “palavras bonitas” – muito menos ensaiadas! (I Cor. 2.4) Pregar o evangelho não exige diploma de teologia. Pregar o evangelho não exige ser pastor de igreja. Pregar o evangelho não exige nível superior. Pregar o evangelho não exige ser “gente grande”! Pregar o evangelho exige viver o evangelho, na dependência de Deus – tal como uma criança depende de seu pai, diga-se de passagem. Não pretendo bancar o polêmico, procurando agulha no palheiro, através da análise do antigo corinho. De forma alguma! No entanto, se me permite, gostaria de sugerir uma importante reforma no último verso da musiquinha. Ainda que a métrica fique ruim, para o bem da missão (que também é infantil), sugiro: “E quando eu estiver desse tamanho assim,/eu quero continuar trabalhando pra meu Jesus, sem fim!”

Lembro de outro corinho infantil que – graças a Deus! – não precisa de reforma, pois sua letra expressa muito bem a integralidade da missão:

Posso ser um missionariozinho,
Se falar de Cristo ao companheirinho;
Posso trabalhar em minha terra

Manda-me, pois, Senhor!

Não preciso atravessar os mares
Para dar aos outros novas salutares;
Posso fornecer sustento aos outros

Que meu Senhor mandou.

Hei de orar e trabalhar fielmente;
Caso Deus me chame seguirei contente
Para os campos que vão branquejando

Dispõe de mim, Senhor.

Posso ser um missionariozinho (Harold Deal/Henry Dekoven Bartells)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Max Weber e a xerox, na repartição.


"O que você vai ser quando crescer?". Quando era criança, respondia: jogador de futebol... Quando virei um rapazinho, assistindo ao Plantão Médico - seriado que passava na Globo, aos domingos -, respondia: médico (do tipo aventureiro, sabe?)... Quando era adolescente, queria impactar o mundo; por isso, respondia: ajudar as pessoas. A verdade é que pra ajudar as pessoas, a gente não precisa ser "doutor". Descobri que eu queria estudar a história da sociedade; a partir daí, analisar as relações/interações sociais ao longo do tempo, através da cultura dos povos. Bem... essa foi uma tentativa de explicar a razão de ter escolhido cursar Ciências Sociais. A verdade é que até hoje vou achando outras explicações... Sou feliz! Ciências Sociais é um curso que me faz aplicar o que estudo em sala de aula no meu cotidiano.

A sociologia, uma das ramificações das Ciências Sociais, apresenta diferentes "pontos de vista" acerca da presença dos indivíduos em sociedade. Com vocês, os três porquinhos da sociologia: Durkheim, Marx e Weber. Para Durkheim, os indivíduos são como um organismo: para seu bom funcionamento, devem prezar pela solidariedade, a fim de que o "corpo social" não adoeça (anomia). Marx - o mais revoltado de todos - denuncia uma desigualdade econômica entre os indivíduos: uns comem caviar e outros, o que vier. Impossível haver uma "solidariedade", enquanto os meios de produção não forem compartilhados. Abre parêntesis. Direitos Humanos só existe na faculdade de Direito... Fecha parêntesis. O que dizer do pensamento dominante? Segundo Marx, as condições materiais determinam as formas de pensar. No entanto, outro pensador surge em cena, criticando a visão dogmática marxista acerca do imaginário humano. Surge Max Weber (palmas pra ele!). Com uma proposta de considerar a realidade plural, inapreensível, dinâmica... Weber postula que os indivíduos devem ser compreendidos por seus significados partilhados. A retórica marxista de dominados versus dominadores recebe uma baita crítica no clássico "Ética protestante e o espírito do capitalismo". Como criticar o serviço numa categoria que o relaciona como elemento que dignifica o homem?

Weber é um camarada bastante utilizado pela Antropologia, bem como outras disciplinas que buscam entender a diversidade cultural. Atualíssimo, me faz entender o comportamento "cordial" dos brasileirinhos. Nosso "jeitinho" foi (profeticamente) estudado pelo teórico, quando destacou as características do patrimonialismo. O embaralhamento das esferas pública e privada se apresenta como elemento constitutivo de nossa identidade nacional (quer você queira ou não, caro leitor) - como destaca Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil. A gente corre o risco de achar que tudo é o quintal de nossa casa. Os exemplos mais lembrados se referem aos engravatados de Brasília, quando desviam dinheiro público para suas polpudas contas bancárias (privadas). Mas, antes de pensar nos outros, por que não penso em meu patrimonialismo de cada dia? Um estágiário que imprime um documento no ambiente de trabalho está exercendo um comportamento patrimonialista? E se for estudante de Ciências Sociais e leitor de Weber? Muito prazer. Dia desses, após imprimir um documento, onde faço estágio, me dei conta disso (com o papel ofício em mão). Sem representar um falso moralismo (os filmes da Sessão da Tarde já fazem isso muito bem, obrigado!), te convido a refletir comigo. "Isto aqui, ô ô, é um pouquinho de Brasil, iá iá!"

domingo, 26 de abril de 2009

Blues da piedade [oração de Cazuza]

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim?

Crônica sobre a Páscoa - por Luiz Fernando Veríssimo.


-Papai, o que é Páscoa?

-Ora, Páscoa é... Bem... É uma festa religiosa!

-Igual ao Natal?

-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.

-Ressurreição?

-É, ressurreição. Marta, vem cá!

-Sim?

-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?

-Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?

-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?

-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade.Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

-O Espírito Santo também é Deus?

-É sim.

-E Minas Gerais?

-Sacrilégio!!!

-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?

-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?

-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.-Coelho bota ovo?

-Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?

-Era... era melhor,sim... ou então urubu.

-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né?

-Que dia ele morreu?

-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

-Que dia e que mês?

- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.

-Um dia depois!

-Não três dias depois.

-Então morreu na Quarta-feira.

-Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como?Pergunte à sua professora de catecismo!

-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?

-É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

-O Judas traiu Jesus no Sábado?

-Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!!

-Então por que eles não malham o Judas no dia certo?

-Ui...

-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

-Cristo. Jesus Cristo.

-Só?

-Que eu saiba sim, por quê?

-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?

-Ai coitada!

-Coitada de quem?

-Da sua professora de catecismo!